O potencial da energia solar térmica é “óbvio”

Os sinais de retoma tardam em fazer-se sentir na indústria solar térmica e tal não acontece só em Portugal. Em entrevista à Edifícios e Energia, Robin Welling, que foi recentemente re-eleito presidente da ESTIF (European Solar Thermal Industry Federation), apontou um queda de 8% em 2012 para o mercado europeu. Para o responsável, o futuro do sector pode estar nas aplicações de larga escala em “segmentos de mercado emergentes”.

 

Em Portugal, as últimas estatísticas da APISOLAR estimam uma queda de 45% em 2012. Como avalia estes números?

A indústria portuguesa está a enfrentar uma situação particularmente difícil, tendo em conta uma combinação de factores extremamente dura para o mercado: o colapso de um mercado recente, com um “boom” seguido por uma queda massiva entre 2009-2011, criada pelo apoio da Medida Solar Térmico, e agora a crise económica e financeira grave.

 

Como devem as empresas enfrentar esta situação?

Eu diria que, juntamente com os sectores da eficiência energética e da construção, é possível demonstrar que o solar térmico pode dar um contributo significativo para o cumprimento da meta obrigatória de renováveis para 2020, para a implementação das directivas para a eficiência energética e para o desempenho energético dos edifícios, isto ao mesmo tempo que cria localmente empregos, mais-valias e benefícios para o consumidor final. Para tal, o argumento de que as políticas de apoio ao calor solar e à eficiência energética são de longe mais baratas do que as outras e que podem ser implementadas no curto prazo com recursos locais é decisivo. Do lado positivo, pode dizer-se que a indústria solar térmica portuguesa tem vários pontos fortes, a partir dos quais o crescimento futuro num contexto económico mais favorável pode ser construído: preços de sistemas competitivos, uma base industrial nacional boa e condições excelentes para o calor solar, tanto em termos climáticos como de perfil de procura.

 

Em 2011, o mercado europeu esteve dividido. Nalguns países, como Portugal ou Espanha, caiu drasticamente, noutros, como a Alemanha, conseguiu crescer. Para 2012, já sabemos que o mercado alemão afinal caiu 5%. Como se portou o mercado europeu em 2012?

À excepção de poucos países, como a Polónia, Dinamarca e Bélgica, os grandes “suspeitos do costume” deparam-se com um mercado negativo ou estagnado em 2012. No total, o mercado europeu caiu perto de 8%, segundo as previsões da ESTIF, que, como habitual, vamos publicar em Junho.

 

Como pode o solar térmico tornar-se uma solução atractiva para o consumidor final?

Em jeito de provocação, eu diria, primeiro, não pondo todas as esperanças no mercado do consumidor final. O potencial do solar térmico numa abordagem “business to business” é óbvio: habitações colectivas (novas ou reabilitação), proprietários ou gestores de grandes edifícios ou empreendimentos imobiliários, indústrias que utilizem calor de processo de média ou baixa temperatura devem ser abordados porque estes segmentos oferecem potencial de crescimento e as decisões de investimento vão seguir padrões mais previsíveis e razoáveis nos quais o solar térmico pode fazer o seu papel mais facilmente.

 

E junto do consumidor final?

Para o mercado do consumidor final, a questão da redução de custos deve ser abordada não apenas do lado do fabricante mas também do lado da instalação. Temos de simplificar tanto os sistemas como o seu marketing: se tivermos em conta o custo do ciclo de vida, as poupanças energéticas de médio prazo, o retorno sobre o investimento (ROI nas siglas em inglês), os nossos sistemas são competitivos, mas, se apenas compararmos o preço do sistema instalado, provavelmente não o são.

 

A indústria solar térmica mostra alguma dificuldade em comunicar as vantagens da tecnologia. Uma das questões principais tem a ver com a quantificação e comunicação da energia gerada pelos sistemas. O que é que a ESTIF está a fazer para ultrapassar esta e outras barreiras de comunicação?

A geração de energia térmica solar ao nível macroeconómico não foi representada estatisticamente de uma forma que permita a comparação com outras fontes de energia renováveis. Para remediar esta situação, o Programa para o Aquecimento e Arrefecimento Solar da Agência Internacional de Energia (IEA-SHC) e a ESTIF acordaram um método de cálculo comum para estimar a geração de energia anual em kWh de um colector solar térmico. Ao nível dos sistemas, a ESTIF tem sido uma força impulsionadora na normalização de metodologias de ensaios para a eficiência de sistemas e de colectores (por exemplo, projectos financiados pela União Europeia, tais como o QAiST), mas, na minha opinião, a comunicação da geração de energia/poupanças energéticas com o consumidor final deve ser melhorada e esta é a responsabilidade individual primária dos agentes da indústria mesmo que a ESTIF possa ter um papel a desempenhar.

 

Esperava-se que o cumprimento da meta para as renováveis em 2020 e o aumento do preço da energia fossem os principais elementos impulsionadores do solar térmico. No entanto, para já, o seu impacto não tem sido o esperado. Como explica isto?

O desenvolvimento a curto prazo do mercado solar térmico é fortemente afectado pelas flutuações nos preços da energia fóssil e das políticas de apoio dos Estados-Membros. Para alcançar as metas europeias, é essencial ganhar maior apoio político para o desenvolvimento do sector e para Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), no sentido de estimular os mercados e compensar tais incertezas. As metas políticas estão definidas ao níveis europeu e nacional, por exemplo a meta de 20% de energias renováveis e o requisito para os edifícios com necessidades nulas de energia em 2020. Porém, não está ainda implementada, ao nível nacional, uma política relevante para atingir estes objectivos e os investidores estão hesitantes relativamente às exigências futuras. Isto resulta numa relutância em investir na energia solar térmica; se o sector recebesse o apoio necessário para ultrapassar os desafios no curto prazo, o panorama para o desenvolvimento do mercado no longo prazo seria bastante positivo. É sabido que os preços dos combustíveis fósseis vão continuar a subir, consequentemente a vantagem da competitividade da energia solar térmica vai melhorar. Para além disso, a energia solar térmica vai tornar-se mais atractiva graças à redução de custos e às melhorias tecnológicas. Outro impulsionador do mercado solar térmico a longo prazo é a segurança e autonomia no abastecimento, o que é uma dos grandes benefícios da energia solar térmica.

 

Num cenário favorável, qual pode ser impacto económico e social do sector?

De acordo com os Planos Nacionais de Acção para as Energias Renováveis (PNAER) dos Estados-Membros de 2010, a capacidade total instalada de solar térmico vai quadruplicar entre 2010 e 2020 e a área de colectores instalados vai crescer 0,26m2per capita, representando uma quota 1,2% para o calor gerado a partir da energia solar térmica.

Este nível de desenvolvimento do mercado solar térmico corresponde ao cenário intermédio do “Potential study for solar thermal”, publicado pela ESTIF em 2009. Neste estudo, o cenário mais ambicioso mostra que, em 2020, será possível alcançar uma área de colectores instalados três vezes maior, i.e., 0,56kWth (0,8m2) per capita. O facto de o resultado combinado dos PNAER coincidir com o nosso cenário intermédio demonstra que fizemos um trabalho sério e que a indústria do solar térmico é razoável.

 

Que tipo de medidas devem ser implementadas para que o mercado volte a crescer?

Acima de todos os elementos já mencionados, gostaria de insistir novamente na importância destes segmentos de mercado “novos” ou “emergentes”, tais como reabilitação de habitações colectivas ou nova construção, redes de aquecimento urbano através de energia solar térmica ou calor de processo. Nestes segmentos de mercado, o solar térmico está a crescer. O mercado do consumidor padrão vai sempre desempenhar um grande papel mas é provavelmente mais difícil, menos previsível e variável de país para país.

 

A crise está a levar ao corte dos incentivos por toda a Europa. Considera que o mercado pode sobreviver sem subsídios?

De forma provocadora, podemos também questionar se, em alguns casos, o mercado solar térmico pode sobreviver aos mecanismos de incentivo tal como estes existem! Hoje podemos observar países cujos mercados crescem ou estão estáveis sem incentivos, mercados com incentivos sem crescimento ou mercados que crescem e com incentivos. O único princípio comum que parece ser verdadeiro é que a estabilidade e a previsibilidade são fundamentais.

 

Mas, por agora, os incentivos são imprescindíveis?

No geral, os incentivos financeiros são necessários porque as tecnologias concorrentes, seja os combustíveis fósseis, seja a electricidade, são muitas vezes subsidiadas de alguma forma e, nesse contexto, nós precisamos de receber apoio também. Dito de forma clara: enquanto, os subsídios e incentivos aos combustíveis fósseis e à electricidade forem 15 vezes mais elevados do que os concedidos às energias renováveis - sem falar daqueles para o solar térmico - temos o direito de beneficiar de incentivos e subsídios progressivos para o solar térmico em qualquer país da comunidade europeia. Para além disso, deve ser claro para qualquer governo que os subsídios e incentivos são para ser entendidos como um investimento com retorno de, pelo menos, 40% e as receitas, empregos e investimentos da indústria vão permanecer, pelo menos, nos 75% em Portugal (ou local).

 

Entretanto, o que pode a indústria fazer?

Idealmente, a indústria deve melhorar a atractividade e competitividade dos produtos solares térmicos independentemente do apoio financeiro, mas devemos estar sempre em pé de igualdade com outras tecnologias.

 

Na sua opinião, que tipo de incentivos é o mais eficaz?

Como já expliquei, os mecanismos de incentivos financeiros devem ser estáveis, previsíveis e simples. Neste momento, encorajamos mais e mais medidas específicas para segmentos de mercado específicos (habitação colectiva, calor de processo).

 

Como o solar térmico pode contribuir para o conceito ‘nzeb’?

Este conceito resulta da directiva para o Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD), que exige a sua implementação nacional com uma avaliação do parque edificado nacional, custos da energia, etc. As indústrias solares nacionais respectivas devem monitorizar estes processos ao nível nacional e garantir que o solar térmico é considerado por aquilo que pode providenciar, em princípio, as metodologias e conceitos devem ser neutros no que se refere às tecnologias, mas, por exemplo, para a parte da produção de águas quentes sanitárias das necessidade de aquecimento, pode ser mais ou menos valorizado em determinadas avaliações ou modelos. Apenas posso encorajar a indústria portuguesa a participar activamente nos grupos de trabalho nacionais e consultadorias sobre o assunto.

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da revista Edifícios e Energia