2018-12-03
O melhor ano de sempre para as bombas de calor
David Alvito

No último ano, o mercado europeu das bombas de calor manteve a tendência de subida e, pela primeira vez, foram vendidas mais de um milhão de unidades.

 

O ano de 2017 foi o melhor ano de sempre para as bombas de calor. Esta é a principal conclusão que se pode tirar dos dados divulgados pela EHPA (European Heat Pump Association), a Associação Europeia de Bombas de Calor. Segundo os dados divulgados pela entidade, o último ano manteve a tendência de crescimento, à semelhança do que tem vindo a acontecer nos três anos anteriores.

 

Em 2017, foram vendidas 1,11 milhões de unidades de bombas de calor, um acréscimo de 10 % relativamente a 2016, ultrapassando, pela primeira vez, o marco de um milhão de equipamentos vendidos num único ano. Em termos acumulados, no final desse ano, o mercado europeu das bombas de calor contemplava um total de 10,6 milhões de unidades instaladas.

 

Segundo a associação, a curva, em 2018, deverá continuar a ser de crescimento. De acordo com indicadores de alguns mercados europeus, até ao final da primeira metade deste ano, deverá ser ultrapassada a marca de 11 milhões de unidades instaladas. Se esta tendência se mantiver, será possível, em 2024, duplicar o mercado europeu das bombas de calor, o que se revelará uma oportunidade a indústria.

 

Um mundo mais verde

 

Um dos principais objectivos da EHPA passa por promover a implementação adequada e de forma consciente da tecnologia das bombas de calor nos mercados residencial, comercial e industrial europeu. Esta associação, que junta 123 membros de 22 países, está situada em Bruxelas e representa a grande maioria da indústria das bombas de calor, sendo que congrega vários ramos, como fabricantes, institutos de investigação, universidades, laboratórios e agências de energia.

 

No passado mês de Outubro, a EHPA organizou um webinar (seminário on-line) com diversos stakeholders, com vista a divulgar os resultados e conclusões do relatório com todas as estatísticas de 2017 relativamente às bombas de calor. A conferência contou com a apresentação de Thomas Nowak, secretário-geral da EHPA, que explicou todas as potencialidades e especificidades da bomba de calor num futuro sustentável e mais verde, colocando este tipo de solução na liderança das necessárias mudanças para um combate eficaz às alterações climáticas, uma vez que, de acordo com a Directiva Europeia para as Renováveis (2009/28/CE), é considerada como uma tecnologia de energia renovável. Uma bomba de calor ar-água é, em traços gerais, um equipamento que tem por finalidade transferir calor do ar e transportá-lo para a água que se encontra no seu interior, de modo a aquecê-la ou arrefecê-la de forma eficiente, utilizando a mesma tecnologia do ar condicionado. Para além do ar e para serem consideradas renováveis, as bombas de calor podem ainda utilizar calor geotérmico ou hidrotérmico, desde que em conformidade com os regulamentos em vigor.

 

Os dados de mercado mais recentes mostram que as vendas de bombas de calor, como já referido, têm vindo a aumentar e, entre 2012 e 2017, esse crescimento tem sido substancial. França é o país onde mais bombas de calor foram vendidas. Segundo os números fornecidos pela EHPA, os gauleses compraram, em 2017, 209 mil unidades de bombas de calor; seguindo-se a Itália, que disponibilizou, para as do segmento residencial, 124 mil unidades deste tipo de equipamento. Só estes dois mercados representam cerca de 37 % do volume total de vendas na Europa. Portugal situa-se na segunda metade da tabela de vendas, que analisou 21 países, ao ocupar o 15º posto, com 11 mil unidades vendidas.

 

A globalidade dos países contempla, agora, um total de 10,6 milhões de unidades de bombas de calor. Esta capacidade permitiu gerar um total de 181,1 TWh (Terawatt-hora) de energia, sendo que 116 TWh tiveram proveniência de fontes de energia renovável. A globalidade dos equipamentos de bombas de calor permitiu evitar a emissão de 29,7 Mt (Milhões de toneladas) de dióxido de carbono para a atmosfera, o que se traduz numa poupança energética de 148 TWh.

 

Poupanças, não só na carteira, mas no planeta

 

Os países escandinavos são, há muito, considerados um exemplo em termos de sociedade e de organização, mas também na forma como usam as tecnologias de bombas de calor, com vista à descarbonização do sector da climatização nos edifícios.

 

De facto, as nações nórdicas colocam-se quase sempre na liderança dos rankings no que a este aspecto diz respeito. Das 21 nações analisadas, a Noruega é a que apresenta um maior número de bombas de calor instaladas por cada 1000 casas. Ao todo, são 406,22 unidades por cada 1000 casas, o que, comparando com Portugal (26,39 unidades), é uma diferença substancial. Foi também na Noruega que, em 2017, se venderam mais unidades, por cada 1000 casas: 29,7. Já em Portugal não se chegou às três unidades (2,8).

 

É também na Escandinávia que se situam dois dos três países onde se produz mais energia renovável através de bombas de calor. Na Suécia, produziram-se 15,6 TWh de energia renovável e na Dinamarca 13,4. Ainda assim, o destacado campeão da produção de energia renovável por intermédio de bombas de calor é a França, que chegou aos 34,1 TWh, para um total global, nos 21 países, de 116 TWh. Portugal encontra-se, novamente, na segunda metade da tabela, com 1,8 TWh de energia renovável produzida através de bombas de calor.

 

A utilização de bombas de calor permite também reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, nomeadamente dióxido de carbono. Em Portugal, o uso deste equipamento permitiu reduzir 0,47 Mt de emissões de CO2. Já em França, um dos maiores mercados, essa poupança situou-se nos 8,7 Mt. De sublinhar ainda que a utilização de bombas de calor originou uma poupança energética, em Portugal, de 2,4 TWh, enquanto em França foram poupados 43,7 TWh.

 

E agora?

 

O mercado continua a subir, muito por culpa de um sector da construção em total efervescência e uma cada vez maior atenção pelas energias renováveis e eficiência energética. Este crescimento será benéfico para a indústria, mas também para os consumidores, já que, até 2030, é esperada uma redução no preço dos equipamentos em cerca de 36 %. No entanto, para estas metas serem atingidas, será necessário um reforço no investimento na capacidade de fabrico e também I&D (Investigação e Desenvolvimento).

 

Para os analistas, o futuro é risonho, com a perspectiva de um crescimento anual na ordem dos 10 % e, nos próximos seis a sete anos, assistiremos ao dobro da disponibilidade de bombas de calor em lares europeus, algo que se verificará, de novo, por volta de 2030.

 

No entanto, na generalidade dos países europeus, o uso de combustíveis fósseis para a produção de aquecimento ainda predomina e existem algumas barreiras que ajudam a este entrave. Desde logo, o preço da energia, que é bastante alto, muito por culpa dos elevados impostos. Por outro lado, e de forma paradoxal, existem ainda diversos subsídios para as energias fósseis, algo que é contraproducente ao uso de formas limpas de energia. De acordo com a OCDE, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, a estimativa de apoio ao uso de combustíveis fósseis situa-se nos 160 a 200 mil milhões de dólares/ano para os países da OCDE e para os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e cerca de 39 mil milhões de dólares para os Estados-Membros da União Europeia.

 

Mas vão surgindo novas opções, em resultado do desenvolvimento tecnológico a que vamos assistindo dia após dia. E as metas estão traçadas, no sentido de caminharmos rumo a uma sociedade cada vez mais livre de carbono. Até 2030, espera-se que 32 % da energia transformada seja de origem renovável, e que se atinja uma eficiência energética de 32,5 %, segundo as ambições europeias.

 

Ainda assim, mesmo com este nível de crescimento, é necessário continuar a apostar em tecnologia que mantenha a tendência de descarbonizar o sector do aquecimento e arrefecimento. Essa é uma das premissas da EHPA, sem esquecer de que, em 2050, se espera uma sociedade 100 % renovável, com casas totalmente eficientes e baseadas apenas e só em energia renovável, focando-se em cinco dimensões chave: segurança energética, mercado interno de energia, eficiência energética, descarbonização e investigação/inovação/competitividade.

ASSINE JÁ
aceito os termos e condições