2019-02-04
“A transição energética no sector do aquecimento não está a acontecer”
Filipa Cardoso

Thomas Nowak é o secretário-geral da EHPA – Associação Europeia das Bombas de Calor e falou à Edifícios e Energia sobre o actual estado de graça desta tecnologia. Para além do contributo que podem dar na ainda “lenta” transição do sector do aquecimento e arrefecimento, as bombas de calor podem, defende o responsável, também ajudar na estabilização e flexibilidade da rede eléctrica do futuro.

 

O mercado europeu das bombas de calor registou um crescimento considerável nos últimos anos. Qual é o panorama actual?

O ano de 2017 não foi extraordinário, mas estamos encantados por ver que foi o terceiro ano consecutivo com um crescimento de dois dígitos. Desde 2015, o mercado europeu das bombas de calor cresceu cerca de 13 % ao ano. Consideramos que este é um crescimento orgânico, podendo continuar nos próximos anos. Indicadores provisórios de 2018 apontam para um crescimento de 8-10 %.No que se refere aos benefícios climáticos, os 1,1 milhões de bombas de calor vendidas em 2017 resultaram em 17 TWhth de calor útil, dos quais 10,5 TWh têm origem numa fonte de energia renovável. Todas as unidades instaladas em 2017 evitaram 2,7 Mt (milhões de toneladas) de emissões de CO2e reduziram o uso de energia final em 13,5 TWh. Em termos acumulados, os 10,56 milhões de bombas de calor instaladas geraram 181,1 TWh de calor útil em 2017, 115,8 TWh de origem renovável. Com estas, evitou-se a emissão de 29,7 Mt de CO2e poupou-se 147,7 TWh no consumo de energia final. Ao mesmo tempo, podem ter proporcionado entre 1 a 3 TWh de flexibilidade de rede do lado da procura, permitindo uma maior geração de electricidade de origem renovável. Se este crescimento do mercado continuar, é realista pensarmos num mercado europeu de bombas de calor com o dobro do tamanho em 2024. As economias de escala vão levar a uma redução dos preços para o consumidor, o que deverá alavancar a disseminação da tecnologia. Para os governantes, as bombas de calor vão ajudar a alcançar as diferentes metas para a energia e clima acordado no âmbito das políticas europeias, enquanto, para a sociedade, as reduções de emissões do lado do aquecimento vão resultar numa melhor qualidade do ar e ajudar a minimizar o aquecimento global e as alterações climáticas.

 

Que factores impulsionaram o recente crescimento?

Os principais motores deste crescimento prendem-se com uma crescente exigência dos requisitos nos regulamentos para os produtos e nas normas para os edifícios. A meta sectorial recentemente aprovada para aumentar a quota de energias renováveis no sector do aquecimento e arrefecimento – um crescimento anual de 1,3 % – vai ter um impacto de crescimento ainda maior. O aumento crescente do mercado vai tornar as bombas de calor numa tecnologia standard confiável e viável, um resultado que só é possível em virtude dos esforços contínuos das associações de bombas de calor europeias.

 

Que obstáculos persistem?

Como barreiras que não foram ainda abordadas estão o desequilíbrio entre as taxas aplicadas aos combustíveis fósseis vs. electricidade e a inexistência de um preço significativo para o uso de fontes de energia com base em carbono.

 

Outras renováveis, como a energia solar térmica, estão a ter dificuldades face à concorrência das bombas de calor. É possível que os dois sectores actuem em conjunto? Há mercado para todos?

À partida, bombas de calor e solar térmico podem ser combinados. No mercado das caldeiras de aquecimento, há espaço para a maior parte das tecnologias e combinações. No entanto, muitas delas apenas irão prosperar em segmentos de mercado relativamente pequenos.

 

Em Portugal, há a preocupação de que as bombas de calor não estejam a ser correctamente instaladas, por exemplo, não usando ar do exterior, o que pode comprometer o seu desígnio enquanto energia renovável. Como comenta a situação?

A directiva europeia diz claramente que toda a energia derivada do ar exterior, água ou terra via bombas de calor é renovável. Quando se trata de ar interior, é melhor optar pela recuperação de calor do que fazer a sua descarga para o exterior. Ainda que a recuperação feita pelas bombas de calor desse calor desperdiçado não seja contabilizada como parte de energia renovável, esta tem o mesmo efeito na energia final: reduz a procura. Para a sociedade, o uso de calor desperdiçado e o uso de renováveis deveriam ser tratados da mesma forma, uma vez que ambos ajudam a reduzir as emissões de CO2. Em qualquer dos casos, o projecto e a instalação correctos das bombas de calor é fundamental e, por isso, os instaladores de caldeiras devem ter formação para melhorar o seu trabalho, de modo a tornarem-se instaladores de bombas de calor. Nos cursos de formação de instaladores, o conhecimento sobre a instalação de bombas de calor deve fazer parte dos currículos básicos na oferta formativa das instituições em toda a Europa. Até porque há também a necessidade de um enfoque especial na explicação sobre como os sistemas a combustíveis fósseis podem ser substituídos por alternativas a fontes de energia renováveis.

 

A Comissão Europeia acabou de apresentar a sua estratégia para a descarbonização. Na sua opinião, que diferença fará? Vai influenciar o mercado?

A estratégia de longo prazo para a descarbonização é o resultado de um trabalho imenso feito por muitas pessoas. Deve reconhecer-se que sumariza um conjunto de acções que é, hoje, possível. Muitos stakeholders concordam que isto não será suficiente para limitar o aquecimento global a 1,5º C até 2050, mas é um primeiro passo importante. Olhando para o relatório em detalhe, este reitera o objectivo de alcançar um parque edificado neutro em carbono em 2050. Se esta meta for trabalhada de forma séria, uma das medidas pode ser a promoção da tecnologia das bombas de calor como uma solução standard para responder não só às necessidades de aquecimento e arrefecimento dos edifícios, mas também às [necessidades] dos processos industriais. Com a multitude de benefícios resultantes do desenvolvimento das bombas de calor, estas podem servir de soluções de integração para um sistema energético renovável e mais equilibrado. No entanto, actualmente, a estratégia a longo prazo não pode ser transposta para uma lei aplicável, já que se direcciona a uma acção necessária para o período entre 2030 e 2050. Até lá, esperamos uma influência verdadeiramente positiva do pacote “Energia Limpa para Todos os Europeus”, com a revisão das directivas para as energias renováveis, eficiência energética e desempenho energético dos edifícios, assim como do novo design de mercado para o sector eléctrico europeu.

 

Pode dar exemplos desses benefícios?

A tecnologia de bombas de calor pode usar energia renovável ou excedente de energia a uma baixa temperatura para fornecer calor a elevadas temperaturas. As bombas de calor fornecem sempre aquecimento e arrefecimento ao mesmo tempo, pelo que, se os dois forem necessários, estas alcançam o nível mais elevado de eficiência energética. Combinados com armazenamento térmico e controlos inteligentes, os sistemas de bombas de calor podem ser utilizados para alternar a procura por electricidade de uma altura de escassez para outra de excedente, ajudando, assim, a estabilizar a rede eléctrica e permitindo uma maior penetração de electricidade renovável (redes inteligentes). Outro exemplo é, se disseminadas em combinação com as redes de energia, as bombas de calor podem ser usadas para ultrapassar a distância entre o local onde está a fonte de energia e o local de uso. A rede energética pode também ser usada como um sistema de armazenamento térmico a partir do qual as bombas de calor podem gerar aquecimento ou arrefecimento.

 

A EHPA apela a uma liderança forte. Como podem os Estados-Membros assegurar a descarbonização do sector do aquecimento e arrefecimento?

Para nós, uma liderança forte significa actuar de forma ambiciosa na direcção certa. Não faltam estudos que mostram que a transição energética no sector do aquecimento não está a acontecer. Sabemos também que, onde quer que a mudança tenha começado, é muito lenta. Por isso, precisamos de mensagens urgentes e ambiciosas que apoiem a mudança para mais energias renováveis e níveis mais elevados de eficiência energética. Depois disso, é preciso passar das palavras à acção, o que significa que o desequilíbrio entre as taxas para os combustíveis fósseis e a electricidade tem de ser corrigido, um preço socialmente justo para o carbono deve ser apresentado e a subsidiação de combustíveis fosseis deve cessar imediatamente. Medidas como estas mostrariam aos agentes de mercado que os governos levam a transição energética a sério e também no sector do aquecimento e arrefecimento.

 

Por sua vez, como pode a indústria ajudar nessa missão?

Na perspectiva da indústria, é preciso gerir este crescimento a que assistimos. Por princípio, a tecnologia é madura, estável e viável, e está suficientemente desenvolvida para descarbonizar a maior parte da procura de calor europeia. Porém, ainda pode beneficiar da Investigação e Desenvolvimento que está a fazer-se, tanto pelos fabricantes, como pelas instituições de investigação. Isto aplica-se, em particular, a melhorias na eficiência dos produtos e sistemas, ao desenvolvimento de pegadas ambientais e físicas mais pequenas (unidades mais compactas para edifícios com menos espaço disponível e uso de menos materiais), ao desenvolvimento de soluções standards para reabilitação, à melhoria das soluções para aplicações de muito baixa temperatura, ao desenvolvimento e optimização dos sistemas que usam novos refrigerantes, e ao desenvolvimento e implementação de sistemas com controlos melhores e interfaces que maximizem o autoconsumo eléctrico e permitam uma maior flexibilidade na procura para a rede eléctrica.

 

Quais as suas expectativas para o novo ano?

A EHPA e os seus membros vão estar muito ocupados com a implementação do pacote Energia Limpa para Todos os Europeus nos Estados-Membros. Espero que isto aconteça de forma suave, já que a COP24 deixou claro, mais uma vez, que temos de começar a agir em vez de apenas falar. Espero que grupos ainda mais amplos de stakeholders alarguem os seus horizontes e vejam o desafio da descarbonização como uma oportunidade que pode ser um programa de emprego enorme para a Europa, activando os recursos financeiros para os consumidores finais para a instalação de tecnologias de fontes de energia renovável nos novos edifícios e nas reabilitações. Aproveitando o espírito das Festas, o meu maior desejo é a preparação e instalação de um mecanismo que implemente um preço significativo para o carbono.

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