2017-06-19
Novo software facilita a escolha das bombas de calor
Filipa Cardoso

Mais do que validar os níveis de eficiência das bombas de calor da marca, a mais recente parceria entre o ITeCons e a Ariston Thermo quer facilitar a tarefa a quem actua no sector da Certificação Energética.

Nasce de uma parceria entre o ITeCons e a Ariston Thermo e pretende dar uma ajuda a engenheiros, projectistas e peritos qualificados (PQ). Trata-se do Ariston EREN, um software que facilita o cálculo da energia captada e gerada no uso de bombas de calor. Para já e como o próprio nome indica, inclui apenas os equipamentos da marca italiana, mas este poderá ser um modelo inspirador para outras fabricantes de bombas de calor.


A ferramenta está disponível no portal P3E do ITeCons e, para usá-la, basta descarregar e instalar no computador. Depois disso, preenchendo as características do projecto – localização, tipologia –, o software calcula a energia renovável produzida em função das condições ambientais do concelho em causa e do equipamento escolhido. Graças à funcionalidade de dimensionamento automático, sempre que se escolhe uma bomba de calor com capacidade inferior às necessidades, o programa alerta para o erro, assegurando, assim, que o equipamento seleccionado é sempre o mínimo necessário para aquele projecto. Desse processo, apurado o COP, gera-se um relatório de estudo, que é enviado à marca para revisão e validação. O contacto entre as partes, a Ariston Thermo e o profissional, fica, assim, estabelecido, mas só é accionado caso haja algum erro ou dúvida do cliente. Quem o garante é Francisco Cordoeiro, responsável do departamento estudos e projectos da fabricante em Portugal, que explica os motivos que levaram à escolha do ITeCons como parceiro – “É uma entidade bastante reconhecida do ponto de vista da Engenharia e que nos tem ajudado a ultrapassar as dificuldades da legislação no que toca às bombas de calor”.

A parceria desdobra-se em duas partes, sendo que a primeira diz respeito à validação da informação fornecida pela Ariston Thermo relativamente aos COP dos modelos da nova gama de bombas de calor Nuos. A segunda visou o desenvolvimento da ferramenta de cálculo. Neste processo, o ITeCons desempenhou o papel de terceira parte independente, concedendo o selo de validação dos resultados divulgados pela marca. Para isso, foi necessário realizar um teste, em condições de ensaio, de um dos modelos – neste caso, a Nuos EVO110 –, escolhido aleatoriamente pelo ITeCons. Nuno Simões, um dos responsáveis pela supervisão técnica e científica da área de Energia do instituto de Coimbra, explica o procedimento: “Estabelecemos um racional de verificação e avaliámos a reprodutibilidade das eficiências, fazendo um processo de validação da informação que é passada”.

 

Complexidade das bombas de calor

Em que medida uma ferramenta destas resolve um problema aos profissionais? Tudo tem a ver com as dúvidas que ainda persistem no mercado no que toca ao entendimento das bombas de calor enquanto energia renovável e sua respectiva aplicação em termos regulamentares. Com as Directivas para as Energias Renováveis (2009) e para o Desempenho Energético de Edifícios (2010), as bombas de calor passaram a ser consideradas parte do lote de tecnologias que usam fontes de energia renovável, ainda que a legitimidade desta decisão não seja consensual entre os profissionais sector. Este “estatuto” das bombas de calor foi também contemplado na última revisão da legislação nacional para os edifícios, em finais de 2013, ficando, todavia, a faltar a definição do racional de cálculo necessário para poder considerar as bombas de calor como renováveis. O esclarecimento só surgiu em Dezembro de 2015, com a publicação do Despacho 14985/2015, mas, mesmo assim, mantiveram-se questões pendentes. “É preciso ainda dar resposta a uma série de questões que deixam os PQ fragilizados na altura de tomar decisões”, reconhece Nuno Simões. “Não tenho dúvidas de que o facto de se considerarem as bombas de calor renováveis é óptimo para o mercado, mas [o tempo em que] andamos a estabelecer e a estabilizar regras tem um peso tremendo para a indústria”.

Facilidade e rapidez neste processo são as vantagens que uma ferramenta como a Ariston EREN traz para os profissionais. “São elementos desbloqueadores”, refere o especialista do ITeCons, em particular num contexto em que, considera, “existe uma desvalorização de mercado muito grande” no processo de Certificação Energética, quer em projectos novos, quer na certificação de edifícios existentes. “Infelizmente deixámos que houvesse essa desvalorização do trabalho do PQ e do projectista e tudo é feito a contra-relógio, o que significa que as pessoas ou têm ferramentas expeditas que lhes permitem fazer o trabalho com alguma garantia de qualidade ou não vão perder tempo, não vão investir. Se lhes faltam coisas tão simples como um parâmetro, isso é, por vezes, o suficiente para desistirem”, exclama.


Nesta primeira fase, a ferramenta existe separadamente do motor de cálculo para fazer a Certificação Energética disponibilizado pelo ITeCons, mas a expectativa é que, num futuro próximo, esta possa ser integrada e, eventualmente, que inclua também outras marcas de bombas de calor, à semelhança do que acontece, por exemplo, com os catálogos de pontes térmicas lineares e das soluções de construção eficientes, também desenvolvidos pelo instituto. Enquanto isso não acontece, o trabalho que é desenvolvido em Coimbra pretende ter uma abrangência transversal, juntando as componentes da investigação e desenvolvimento, laboratório de testes, formação e consultadoria. Com isto, explica Nuno Simões, é possível alcançar uma posição privilegiada na ponte entre a indústria e os profissionais, em particular os PQ.


“A nossa intenção é sempre ser facilitadores desta informação”. Simplificar a vida dos PQ é já uma missão antiga do ITeCons, confessa Nuno Simões, que vem, aliás, desde 2006, quando a entidade começou a desenvolver ferramentas de cálculo e a distribuí-las aos profissionais na sequência da introdução da primeira revisão regulamentar. “Parte da nossa motivação tem a ver com a formação que damos e ao contacto que temos com os peritos. Desde 2006, a ferramenta foi crescendo, crescendo e, hoje, a ferramenta vocacionada para simplificar a emissão do Certificado Energético tem uma média de 9000 gerações mensais”, expressa.

Do lado da Ariston Thermo, esta nova ferramenta traz claramente vantagens comerciais, na medida em que facilita a escolha dos equipamentos da marca. Para além disso, os resultados obtidos “superaram as expectativas”, conta Francisco Cordoeiro. “Nos ensaios a 14oC, conseguimos um COP de 2,68, enquanto o do catálogo é 2,58. É uma diferença muito significativa”.

Os resultados podem levar a ferramenta desenvolvida em Portugal além-fronteiras, isto porque, segundo Francisco Cordoeiro, já há interesse da marca internacional em fazê-lo. “Em Itália, receberam com satisfação o facto de o nosso produto ser distinguido por uma entidade externa e com resultados que superaram as expectativas, pelo que já pediram o ensaio e querem lançá-lo como ferramenta comercial para validar o produto noutros mercados”. A explicação é simples – “Dá uma confiança extra, foi testado por uma entidade externa e foi a primeira vez que o fizeram [Ariston Thermo] a nível mundial. Isto é um projecto pioneiro que pode nascer para outros produtos”.


A criação desta ferramenta é também uma forma de a Ariston Thermo se reafirmar no mercado português, beneficiando de um “selo de credibilidade”. Para a marca, foi necessária “uma reestruturação a nível nacional para se enquadrar nas novas necessidades e exigências do consumidor português, que é cada vez mais exigente”. Por esse motivo, a Ariston afirma que, nos últimos anos, tem vindo a reforçar a estrutura e a estabelecer parcerias com entidades externas de formação, de modo a “fomentar, junto dos profissionais do sector, a necessidade de optar por produtos cada vez mais eficientes”.

Por esse motivo, é expectável 2017 seja “um ano de consolidação” da marca em território português, contando para isso com uma reformulação na assistência técnica, bem como com o crescimento da sua estrutura em Portugal, assegura o responsável. O objectivo está definido: “Queremos fazer com que o mercado português cresça novamente com a Ariston Thermo”.

ASSINE JÁ
aceito os termos e condições