2018-12-11
2020, o ano verde de Lisboa
David Alvito

Lisboa foi eleita Capital Verde Europeia 2020, impondo-se a Ghent, na Bélgica, e a Lahti, na Finlândia.

 

Lisboa está na moda, mas, em 2020, haverá ainda mais razões para visitar a capital portuguesa. Isto porque Lisboa venceu o título de Capital Verde Europeia 2020, numa distinção anunciada em Junho por Karmenu Vella, Comissário Europeu do Ambiente, Assuntos Marítimos e Pescas. Esta é a primeira vez que uma capital do Sul da Europa arrecada o prémio, levando a melhor face às concorrentes Ghent, na Bélgica, e Lathi, na Finlândia.

 

Será um marco histórico para Lisboa, num momento em que a cidade está debaixo dos holofotes do mediatismo internacional. A capital de Portugal é, actualmente, um dos principais destinos turísticos europeus, e esta distinção não passa, certamente, ao lado do boom que se tem feito sentir no “farol da lusofonia”. Mas a distinção não surgiu por acaso: nos últimos anos, a câmara municipal de Lisboa (CML) tem desenvolvido uma série de trabalhos e iniciativas com vista a tornar a cidade cada vez mais verde, sustentável e pensada para as pessoas, apostando em factores como a eficiência energética e ecologia, entre outros parâmetros determinantes para a atribuição do galardão.

 

“As mudanças climáticas, o consumo excessivo, o desperdício de plástico e a perda de biodiversidade são grandes ameaças para as nossas cidades e o nosso futuro. É animador e inspirador ver uma liderança tão forte de Lisboa e de outros vencedores da Capital Verde da Europa”, afirmou Karmenu Vella.

 

Mãos à obra

 

O prémio “Capital Verde Europeia” surgiu em 2008 e, todos os anos, distingue cidades que tenham registos consistentes no que ao alcance de altos padrões ambientais diz respeito, cidades que se comprometam a atingir ambiciosas metas para a melhoria ambiental e o desenvolvimento sustentável, e que possam agir de modo a promoverem as melhores práticas e a serem modelos que sirvam de inspiração a outras metrópoles. Anualmente, a Comissão Europeia recebe entre 30 a 40 candidaturas. Mas o processo é longo, moroso e exigente, e coloca diversos parâmetros como primordiais: ecologia, eficiência energética, política de resíduos e sustentabilidade social da cidade.

 

Depois de perder para Oslo, Noruega, a corrida para este título de 2019, Lisboa viu, agora, premiado o trabalho para tornar a cidade mais amiga do ambiente e próxima das pessoas. Iniciativas como a pedonização de várias zonas da capital, o exponencial aumento das áreas verdes e os progressos confirmados em matéria de gestão de água e eficiência energética levaram o júri a atribuir o galardão a Lisboa.

 

Segundo a CML, contactada pela Edifícios e Energia, “Lisboa foi premiada pela capacidade de marcar um rumo consistente de políticas de sustentabilidade nos últimos anos, tendo melhorado de forma substancial em todos os indicadores avaliados. E porque o fez dentro de um âmbito de sustentabilidade financeira e até sob um contexto de crise financeira nacional, estes objectivos foram ainda mais valorizados. A candidatura mostrou que é possível ser-se sustentável de um ponto de vista ambiental e, ao mesmo tempo, promover a qualificação da cidade e da melhoria da vida dos cidadãos, num cenário em que os mesmos são cada vez mais chamados a participar”.

Por sua vez, Fernando Medina, presidente da CML, e que esteve presente na cerimónia que atribuiu o prémio a Lisboa, agradeceu a confiança dada à cidade com este prémio, que é “a passagem de uma bandeira para Lisboa, a bandeira da sustentabilidade. Sabemos bem quais são as nossas responsabilidades. Vamos fazer tudo para manter esta bandeira da sustentabilidade”, assegurou. “Esta é a primeira vez que uma cidade do Sul da Europa vence o concurso”.

 

A cidade de Lisboa tem características muito próprias e, no futuro, será uma das mais afectadas pelos efeitos das alterações climáticas, que, já hoje, se fazem sentir. Segundo alguns estudos, a capital portuguesa assistirá, até 2050, a um aumento do nível da água do mar entre os 17 e os 38 cm, para além de uma diminuição, em cerca de 29 %, da quantidade de chuva (até 2100), apesar do previsível aumento de cheias e de tempestades. Também até 2100, é esperado um aumento da temperatura média do ar entre 1º a 4ºC. “O desafio que temos pela frente é o de encontrarmos e fazermos aquilo que é necessário para sobrevivermos e para prosperarmos numa realidade ambiental que está a mudar. E está a mudar hoje”, apontou Fernando Medina.

 

Para os responsáveis que decidiram atribuir o galardão a Lisboa, a capital portuguesa tem sido exímia na forma sustentável como utiliza os solos e na adaptação às alterações climáticas. “Lisboa foi a primeira capital na Europa a assinar o Novo Pacto de Autarcas para Mudanças Climáticas e Energia em 2016, depois de alcançar uma redução de 50 % nas emissões de CO2(2002-14); reduzir o consumo de energia em 23 % e o consumo de água em 17 % de 2007 a 2013”, destacou o Comissário Europeu do Ambiente, Assuntos Marítimos e Pescas.

 

Para além do título, Lisboa arrecadou também um cheque no valor de 350 mil euros. Mas agora é necessário colocar a “mão na massa”: a cidade tem de desenvolver e apresentar um plano de actividades, com o respectivo orçamento, interligadas com o ambiente e sustentabilidade, e a concretizar daqui a cerca de dois anos. Ao mesmo tempo, as iniciativas terão de ter o aval das instâncias europeias. José Sá Fernandes, vereador da Estrutura Verde e Energia da Câmara Municipal de Lisboa, já tem destino para o prémio monetário: “Vamos ter conferências, simpósios e obras. Mas todos os dias vão ser de festa. Desde os mais novos, até aos mais idosos, todos vão ter programas associados”, enfatizou o responsável pelo pelouro verde, da CML.

 

Agora, os objectivos estão definidos. De acordo com a CML, “pretende-se reforçar Lisboa como uma cidade amigável e ambientalmente sustentável, com a prossecução da requalificação de praças, ruas e largos, a criação de parques, corredores verdes e hortas urbanas, a melhoria da mobilidade com a entrada em funcionamento do programa de investimento da Carris, a expansão das GIRAs, mas também a introdução de medidas de sustentabilidade na qualificação do edificado, nomeadamente ao nível do desempenho energético e ambiental, promovendo a inércia térmica e a sustentabilidade dos materiais, o aumento da centralização de serviços nos edifícios para melhoria da performance, a aposta no solar térmico e fotovoltaico (incluindo uma central de produção para abastecimento de frota eléctrica), o reaproveitamento de águas, entre outras. A promoção de habitação a custos controlados dará também espaço à introdução de mecanismos de maior exigência ambiental nas renovações previstas”.

 

A cidade de Lisboa detém uma das maiores redes mundiais para carregamento de veículos eléctricos e quase 40 % dos veículos do município são eléctricos. Em termos de transportes públicos, aproximadamente 3 % dos lisboetas vive a 300 metros, ou menos, de um serviço frequente de transporte público, que, no entanto, se pretende que venha a ser melhorado.

 

Para além da questão urbanística e de mobilidade, a reconversão e melhoramento de espaços verdes é também um dos azimutes de acção que esta distinção vem alavancar. De acordo com Fernando Medina, até 2021, a capital portuguesa terá 400 hectares de espaços verdes, um aspecto primordial para a melhoria da qualidade de vida dos lisboetas, cuja população vive, em média, a cerca de 300 metros de um espaço verde, áreas com menor nível de ruído e que contrariam o efeito de ilha de calor. A despoluição do Rio Tejo, um trabalho feito ao longo dos último dez anos, e que necessitou de um investimento de mais de 200 milhões de euros, foi também um dos parâmetros tidos em conta, bem como a eficiência no abastecimento de água (em 2005, as perdas eram de 23,55 %; actualmente as perdas rondam os 8 %).

 

“Projectará a cidade e atrairá empresas e emprego”

 

Os dados estão lançados e os alicerces para o futuro sustentável da cidade são a grande aposta. “A cidade pretende aproveitar este prémio como um incentivo para a prossecução de políticas de sustentabilidade. Como foi afirmado pelo presidente [Fernando Medina], o galardão não será visto como um reconhecimento, mas como um incentivo a conseguir-se fazer mais e melhor nestas áreas. Para além das questões estruturais nas diversas áreas de abrangência, espera-se que 2020 seja um ano de experimentação e inauguração de vários programas e propostas que sustentaram a candidatura”, reconheceu a autarquia.

 

Mas o prémio vai muito para além da questão da sustentabilidade. A distinção como “Capital Verde Europeia 2020” colocará Lisboa ainda mais no topo das opções dos grandes players internacionais que olham para a capital portuguesa como um dos principais destinos do investimento. Dessa forma, para a CML, “ser Capital Verde é um galardão de prestígio, que, a par de outros, projectará certamente Lisboa neste âmbito, atraindo mais empresas e emprego nestas áreas da economia circular, sustentabilidade e das cidades inteligentes, mas também aumentando a exigência dos cidadãos sobre a qualidade de vida e do ambiente da sua cidade”.

 

Este galardão é mais um motivo de orgulho para Portugal, em geral, e para a cidade de Lisboa em particular. Mas não é um prémio de carreira. “O que vamos fazer com este galardão é mobilizar ainda mais a cidade de Lisboa, as escolas, as empresas, todas as forças vivas da cidade, para que possam contribuir com as suas ideias, os seus projectos, num grande movimento de mobilização colectiva pela causa da sustentabilidade”, sublinhou Fernando Medina.

 

A cidade portuguesa, que se torna, assim, na primeira capital do Sul do Europa a conquistar esta distinção, junta mais um atractivo ao seu já vasto património, material e imaterial, e integra um grupo restrito de cidades que, desde 2008, foram distinguidas com este prémio: Estocolmo (Suécia), Hamburgo (Alemanha), Vitoria-Gasteiz (Espanha), Nantes (França), Copenhaga (Dinamarca), Bristol (Reino Unido), Liubliana (Eslovénia), Essen (Alemanha), Nijmegen (Holanda) e Oslo, na  Noruega, que, no próximo ano, será a Capital Verde Europeia.

 

O prémio destina-se a cidades com mais de 100 mil habitantes, mas os municípios mais pequenos, com entre 20 mil a 100 mil habitantes, não são esquecidos e contam com a distinção European Green Leaf. Depois da atribuição do título a Torres Vedras em 2015, em 2019, Portugal não foi tão feliz. A cidade ribatejana de Santarém acabou por não ser contemplada, com os prémios a distinguirem as cidades de Coernellà de Llobregat (Espanha) e Horst aan de Maas (Holanda). 

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