2017-12-20
Opinião: É Verdade! Sempre há alguém que vai fazê-lo mais barato
Odete de Almeida, Engenheira Projectista

Resultante da crise económica e financeira de 2008 ou das mudanças dos tempos, é transversal, nos serviços da engenharia da climatização, há alguém que vai fazer mais barato.

 

A generalização dos preços anormalmente baixos (1), oferecidos nos serviços da engenharia que proliferam há uma década, pode ter origem na angústia desesperada sentida pelos agentes do mercado da construção, perante situações económicas difíceis que, até à data, lhe eram desconhecidas. Este sentimento bloqueou totalmente a visão das consequências que a prática de preços anormalmente baixos poderia trazer para o sector. Aliada a este está a descontracção de trabalhar sem qualquer sentido de dever, suportada pela falta de responsabilização do actos de engenharia danosos de quem os pratica.

 

Entre 2008 e 2015, o público e privado deixaram de investir, colocando pessoas e empresas sem remuneração. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, o número de edifícios concluídos entre 2008 e 2015,desceu 74 %. Projectistas, empreiteiros, fabricantes de equipamentos e materiais digladiaram-se para ganhar um novo lugar no sector, nem que fosse à custa de invadir outras áreas de negócios para os quais não ofereciam qualquer experiência ou qualidade.


Em 2015, o sector começa a dar um pequeno sinal de inversão, mas a lei da oferta e da procura foi implacável. Se a oferta de um serviço excede a sua procura, o preço tende a cair. E a solução que o sector encontrou para a crise foi descer preços de forma irracional, isto é, desvalorizar o produto que é a prestação de um serviço altamente qualificado, a Engenharia. Há sempre alguém que faz mais barato! O cliente agarrou a oportunidade sem considerar os resultados. Mais, o Código dos Contratos Públicos (CCP) "dá razão" ao cliente, pois preços anormalmente baixos não deixam de ser garantia de um serviço. Como não é possível produzir abaixo do custo, sacrifique-se o serviço, e, assim, o cliente obtém o que paga! Entretanto, vamos esperando que, por um mero milagre, o mercado se auto-regularize, que as mentalidades e comportamentos se alterem. Porém, enquanto esperamos, desaprendemos!


Uma ineficiência no comportamento profissional tem custos elevados!

Há sectores da economia em que a prestação de serviços low-cost pode oferecer uma razoável qualidade, inclusive contribuem para o PIB do país. Por exemplo, o turismo. Todavia, no sector imobiliário, já aparecem sinais de aviso sobre os riscos que os agentes de "vão de escada" estão a infligir no sector (presidente da Associação dos Industriais da Construção de Edifícios, Jornal Económico, 21 out. 2017).

 

É conhecido que os praticantes "vão de escada" cobram preços anormalmente baixos. Mas se a meta a atingir é projectar de modo que se contrua uma envolvente sustentável dentro e fora do edifício "Built Environment", este objectivo não será possível de alcançar sem investir nas pessoas e nas empresas. Porém, para investir é preciso dinheiro, o qual poderá ser obtido através de empréstimo bancário ou de trabalho realizado, mas se o último for mal pago, então este não gerará dinheiro para investir, a não ser que aconteça por magia. 


Quando, num país um sector não investe, todos temos a perder. Pois jovens academicamente qualificados escapam-se para fora de Portugal, onde um outro mercado, sabiamente, reconhece as suas capacidades. Assim como, as empresas que não realizam dinheiro ou tempo para aplicar na formação contínua dos seus colaboradores, nunca irão actualizar os seus conhecimentos. Mais, estas dificilmente terão dinheiro para investir em novo software, hardware e outros equipamentos, tão necessariamente valiosos para, por exemplo, projectar e executar um edifício nZEB. Assim, será fatal como o destino, a ineficiência na engenharia da climatização, já comprovada por algumas amostras de projectos e instalações executados, irá tornar-nos muito menos competitivos relativamente a outras empresas do mesmo sector da Europa Central e do Norte. E nós somos bons, muito bons!

Obrigado, Engenheiro!


O modo como pensamos e actuamos agora, delineará o futuro da actividade da engenharia da climatização. Neste momento, estamos a enviar ao sector da construção o valor dos nossos serviços. Se o custo versus o valor dos nossos serviços não verifica a realidade, então devemos alterar a nossa atitude de agir no mercado.

 

Há pessoas a trabalhar na área dos edifícios que não pensam e nem trabalham low-cost. Assim como há Ordens e Associações que já se pronunciaram publicamente sobre as consequências da prática de situações de dumping salarial (e social), que incitam a que os técnicos competentes sejam desadequadamente remunerados(2). Há também propostas apresentadas ao Governo com o intuito de alterar alguns artigos do novo CCP que impeçam as empresas de violar os princípios da justeza do trabalho de engenharia (2), e certamente há muita vontade individual em mudar o presente cenário.

A ver pelo novo CCP e pela atitude actual dos profissionais de engenharia, os preços dos serviços de engenharia de climatização vão continuar a descer. Para travar esta tendência, tem de se alterar comportamentos, o que parece substancialmente difícil, mas não impossível! Se actuarmos individualmente nesse sentido, ganhamos notoriedade, mas praticamente nada muda.

Temos de tentar, o que, até à data, parece que não foi tentado, como indivíduos incorporar-nos nas Ordens e Associações do sector. Como Ordens e Associações, tentar o diálogo entre todos e formar um grupo sem estrelas, onde todos trabalham para um só objectivo e contra um adversário poderoso, a mudança de mentalidades. Assim, acredito que poderemos ter a chance de ser ouvidos e alcançar um valor maior para a engenharia com projectos e instalações condignas. Não foi assim em 10 de julho de 2016, Engenheiro?



(1) Definição de preços anormalmente baixos em artigo 71.º, Decreto-Lei nº 18/2008 de 29-01-2008 > Código dos Contratos Públicos > Parte II - Contratação pública > Título II - Fase de formação do contrato > Capítulo VII - Análise das propostas e adjudicação.
(2) Ordem Engenheiros (OE), discussão pública, anteprojecto de revisão CCP, 2016.

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