2018-10-09
Gouveia com balanço energético nulo
David Alvito

Até 2023, os edifícios devolutos do centro histórico de Gouveia serão transformados em edifícios de alta performance energética. É esse o objectivo do projecto SENZEB, que resulta de uma parceria entre a Universidade de Coimbra e a Câmara Municipal da cidade.

 

O projecto, apresentado no passado mês de Abril, tem como meta colocar os novos edifícios em linha com as exigências da Directiva Europeia sobre o Desempenho Energético dos Edifícios, ou seja, que, até 2020, todos os imóveis novos tenham balanço energético praticamente nulo (NZEB).

 

A iniciativa, que nasce de uma associação entre o Departamento de Arquitectura da UC e o colectivo Archigraphics Studio, será dividida em três etapas: casa piloto de construção optimizada, projecto piloto de reabilitação e integração num conjunto mais amplo a intervir.

 

No final, serão reunidas todas as informações, desde estratégias de reabilitação, técnicas, materiais e fabricantes, e compiladas num documento disponível a toda a população, deixando assim a possibilidade de replicar o projecto a nível nacional ou comunitário.

 

A zona de Gouveia não foi aleatoriamente seleccionada já que o ambiente exigente, em termos climáticos, proporciona uma aliança entre o desafio em termos técnicos e a responsabilidade social de investir no interior de Portugal, numa das zonas do país que mais sofre com o envelhecimento da população e com a dificuldade em manter as gerações mais jovens. O projecto pretende, desta forma, servir de ferramenta para ajudar a fixar a população nos centros urbanos, proporcionando habitações a custos acessíveis e que respondam à qualidade de vida exigida nos dias de hoje.

 

O projecto SENZEB prevê assim estimular a fixação de população nos centros urbanos, com residências a custos acessíveis e com condições de conforto e qualidade de vida compatíveis com padrões que a actualidade reclama.

 

Balanço energético quase nulo na Serra da Estrela

 

João Briosa é um dos promotores do projecto SENZEB. Contactado pela Edifícios e Energia, João Briosa explicou que este é “um projecto de investigação, desenvolvimento e construção experimental. Procura promover a investigação em arquitectura, e a construção e reabilitação de edifícios residenciais demonstradores de um balanço energético quase nulo, a levar a efeito na Serra da Estrela”.

 

O nome SENZEB (Serra da Estrela Nearly Zero-Energy Buildings) provém da norma europeia NZEB, que obriga a que todas as novas construções desenvolvidas depois de 2020 tenham um balanço energético praticamente nulo. Assim, para João Briosa, “o principal objectivo é provar que é possível dotar as casas portuguesas de uma elevada eficiência energética, a custos acessíveis à maioria da população”. Como fazer? O especialista responde: “Isto consegue-se, por um lado, pela diminuição drástica das necessidades de energia para o seu funcionamento, aquecimento ou arrefecimento e, por outro, pela microprodução local de energias renováveis. O projecto propõe estudar as melhores práticas e opções técnicas do desenho dos edifícios, de forma a assegurar níveis adequados de conforto nas nossas habitações”.

 

Para dar corpo a esta iniciativa, é necessário formar uma equipa preparada tecnicamente para desenvolver os projectos de reabilitação, com uma componente prática de extrema importância. Segundo o promotor, “a iniciativa tem uma componente prática muito forte que vai ao encontro do que designamos por investigação em arquitectura. Os princípios orientadores do projecto SENZEB exigem a construção de edifícios demonstradores, permitindo verificar o cumprimento dos objectivos do projecto, optimizando os recursos e monitorizando o comportamento dos edifícios a longo prazo. Esta metodologia assegurará que se continue a produzir conhecimento após a conclusão dos trabalhos de construção”.

 

Apesar de tudo, ainda não existe um prazo exacto para o início da recuperação dos edifícios que se encontram devolutos. No entanto, João Briosa coloca o ano de 2020 como “o ano zero”. “Um dos objectivos do projecto é, em 2020, quando a norma NZEB entrar em vigor, podermos assegurar que não só é possível construir, como também reabilitar edifícios, dotando-os de uma elevada performance energética. Nesse sentido, apontamos a reabilitação do primeiro edifício para esse ano, sendo que os restantes edifícios serão reabilitados nos anos seguintes”, destaca João Briosa.

 

O portal do projecto (www.senzeb.pt) encontra-se já totalmente operacional. Neste fórum, qualquer pessoa terá acesso a todas as informações acerca do programa, inclusive a equipa de parceiros fundadores e o dossier de apresentação.

 

Este é um projecto ambicioso, mas que não se encerra em si, nem é estanque. João Briosa garante que a iniciativa irá produzir um dossier, de acesso público e gratuito, no qual se descreverá todo o processo, incluindo as melhores práticas e estratégias para a reabilitação bioclimática e eficiente. “Esperamos ainda que o projecto potencie a replicação das soluções técnicas e os sistemas construtivos optimizados, em novos edifícios ou em reabilitação, adequando as soluções encontradas às especificidades de cada cidade ou região. Esperamos poder alargar o campo de experimentação a outras geografias físicas e culturais, e mesmo para contextos internacionais congéneres”, acrescenta.

 

Os dados estão lançados. Agora, é preciso “pôr mãos à obra”. Até 2023, o projecto conta ter concluída a reabilitação do edificado devoluto no centro de Gouveia. No entanto, esse será apenas o primeiro passo. O intuito é monitorizar a eficiência energética dos edifícios, a longo prazo, efectivando igualmente um estudo sociológico e socioeconómico e de gestão do património reabilitado, lançando um olhar sobre o interior do país, sem esquecer a necessidade premente de divulgação dos resultados do projecto. 

 

O futuro com conforto e ambientalmente responsável

 

As metas do projecto estão perfeitamente definidas e balizadas, mas o sonho ultrapassa as questões técnicas. A equipa espera poder comprovar, desta forma, que é possível ter habitações, para a classe média, a custos acessíveis, confortáveis, e que oferecem qualidade de vida a quem lá vive, sem nunca esquecer o marco fulcral: a sustentabilidade ambiental, um tema que tem merecido amplo destaque no discurso público.

 

O interior do país, tantas vezes esquecido, não está desligado dos temas da sustentabilidade e da reabilitação do património. Estas metas são, actualmente, determinantes e primordiais nas políticas de urbanismo que alavancam o desenvolvimento sustentável.

 

O futuro caminha para cidades sustentáveis. O tema tem sido amplamente sublinhado nos discursos políticos. Mas a distância entre a palavra e a acção ainda é longa, com uma premente necessidade de envolvimento do poder central e do poder local, sem esquecer os espaços de debate, de conhecimento e de investigação, como os centros universitários, que não se podem alhear da sociedade civil. 

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