2019-01-02
“Estamos muito libertinos na interpretação das regras”
Filipa Cardoso

Sem dados oficiais e com uma associação industrial “em gestão”, o mercado da energia solar térmica em Portugal passa por moribundo. Mas a nova construção está de volta e esta é uma oportunidade que as empresas não podem desperdiçar. Victor Júlio, director comercial da Baxi e, até aqui, vice-presidente da APISOLAR para a energia solar térmica, garante que o mercado nacional está a crescer ligeiramente, mas apela à união do sector contra um concorrente de peso: as bombas de calor.

 

 

A APISOLAR, na qual assume o cargo de vice-presidente para o solar térmico, tem estado parada. Em que pé está a associação?

A APISOLAR tem, neste momento, uma direcção de gestão, que dá resposta a solicitações de qualquer agência pública ou privada de energia, como a Direcção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), ADENE ou a Solar Heat Europe, mas não tem uma mecânica pró-activa. A APISOLAR está completamente legal, a questão é que não tem dinâmica. A associação está em standby, o trabalho necessário é feito com os recursos humanos da empresa do presidente, João Carvalho, a Coeptum, e com o tempo que o empresário entender pro bono. A última grande fornada de trabalho foi feita pelo fotovoltaico, no âmbito do autoconsumo, mas, entretanto e tal como aconteceu com o solar térmico após as campanhas, esvaziou-se.

 

O que levou a essa situação?

Na vida, as coisas funcionam desta forma: quando se é pró-activo e o mercado não reage e se volta a tentar e tentar – como foi o caso com o lançamento dos inquéritos [2016 e 2017], sem nenhum retorno do mercado –, não vale a pena. Por isso, esta direcção não se recandidatou, mas também não houve mais ninguém que o tivesse feito.

 

É importante que a associação retome a actividade?

Importantíssimo! Estamos outra vez num boom de construção enorme, as bombas de calor são, legalmente, uma agressão – não é boa, nem má – e o solar tem outra vez de se unir, isto se quer efectivamente manter-se. Hoje, está vivo à custa dos fabricantes e importadores, que fazem toda a comunicação e as promoções. A associação, como não tem essa dinâmica, não o está a fazer. Mas este tem de ser um trabalho conjunto também da parte dos decisores, que não estão a fazer nada pelo assunto.

 

Mas não há também quem os pressione para isso.

Também é verdade. Quando reunimos com eles, fomos sempre bem-recebidos, mas sem nenhum carácter prático.

 

Como esteve o solar térmico em 2018?

Estamos a verificar que a construção nova voltou. Tendencialmente chamamos-lhe “obra nova” de propósito, porque se trata de construção vertical e não é nada de novo – ou leva caldeira ou não leva caldeira; ou leva radiadores ou ar condicionado; leva solar obrigatoriamente. A Directiva para as Renováveis trouxe uma alteração ao mercado, ao incluir as bombas de calor como energia renovável, mas, para isso, é obrigatório que o ar seja captado do exterior. Isso não é uma comunicação fácil, mas que tem lógica: se se usa ar que é aquecido em casa por efeito de joule ou outro qualquer a gás, então não cumpre. Nem todas as bombas de calor o fazem.

 

Continua a haver muita confusão nesse tema?

Sim, vê-se muito no mercado. Há apartamentos novos à venda com bomba de calor que não tem ligação para o exterior. Isso não pode acontecer!

 

Nesses casos, o que aparece nos certificados energéticos?

Bomba de calor. O perito não tem de saber, mas ele também não ia ao telhado ver se o painel tinha o rendimento x... É um bom senso que impera entre os comerciantes, embora o perito tenha a obrigação de ter a certeza do que está a fazer. Basta pesquisar no Idealista e encontramos fotografias de casas com bombas de calor sem tubo e que estão montadas numa casa nova a substituir o solar. Quem é que vai descobrir que aquilo não vai funcionar? O cliente final. O que vai fazer? Não sei...

 

Não há consequência para isso?

Não. Estamos muito libertinos na interpretação das regras.

 

Como é que isso influencia o mercado do solar?

Com a obrigação que se mantém no m2 equivalente por habitante, e uma vez que estamos com taxas de crescimento de construção – se virmos pelo lado das licenciadas que, a cada dois anos, se transformam em concluídas – nos 60 %, começa a haver muitos fogos novos. Há notícias nos jornais a dizer que Portugal precisa de 100 mil novos fogos! Nesse caso, o solar tinha de crescer brutalmente. O que faz com que o solar não cresça e se mantenha nos mesmos níveis – à volta dos 50 mil m2/ano – é que uma parte do crescimento é absorvida pelas bombas de calor. É a realidade que estamos a verificar.

 

Que números de mercado podemos esperar para 2018 e 2019?

Se olhássemos estritamente para a evolução da construção, o solar térmico tinha tudo para crescer. Mas temos de ser realistas e perceber que há uma grande parte desse potencial de crescimento que vai ser ocupado pela bomba de calor e, com isso, o que estamos a verificar é que o negócio do solar térmico se mantém estável ou com um ligeiro crescimento ao longo de 2018, comparado com o ano anterior. O crescimento é impulsionado pelo aumento da construção, e vai dividir-se. Mas o que esperamos para o solar é um crescimento ligeiro.

 

Qual o argumento a favor do solar?

No subconsciente das pessoas, o solar continua a ser a única fonte de energia que é gratuita, porque a bomba de calor tem uma parte que é gratuita, mas tem outra ligada à tomada. Há grupos de clientes que não querem usar essa energia. Querem solar!

 

É uma fatia pequena...

Há cada vez mais. Esperamos que as bombas de calor que se colocam para substituir solar tenham efectivamente produzido energia gratuita igual ou superior e por isso é que se fazem os cálculos. Mas há muitas coisas a ter em conta. As muitas reuniões que tivemos com a DGEG foram no sentido de perceber exactamente o que estamos a comparar. O solar tem um ensaio matemático, uma fórmula que obriga a que se compare o painel solar com o padrão, que foi criado, é fictício, mas é matemático. Ou dá a mesma energia ou, se não dá, não cumpre. Ou tenho de colocar mais m2ou mais painéis. Nas bombas de calor, existe o SCOP, que é o COP sazonal, só que é uma autodeclaração do fabricante. É uma brincadeira – e vimos o que aconteceu com a Volkswagen! É comparar alhos com bugalhos. Ao solar exige-se um cálculo matemático e uma comparação numérica, à bomba de calor pede-se uma autodeclaração. Entendo: uma parte da energia da bomba de calor é gratuita, agora quanto é? É em função da temperatura que lá estiver fora e do rendimento e condições da máquina. Mas uma autodeclaração sem cálculo?! O painel solar é ensaiado, tem o padrão do Solar Keymark. Nas bombas de calor, isso não acontece.

 

O utilizador vai sair prejudicado com isso?

Não estou a dizer que vai sair prejudicado. As bombas de calor são energia renovável, não há dúvida disso, mas, quando a bomba de calor substitui o solar, a comparação matemática tem de ser inequívoca. Absolutamente nada me move contra as bombas de calor, mas o ensaio tem de ser tão rigoroso como o do painel solar. Há determinadas construções em que me choca ver um prédio com termossifões. Um prédio ou tem um sistema colectivo com depósito central ou depósitos nas habitações. Agora, termossifões para fazer quedas de água de 30 metros? Gasta-se o calor todo da água pelo caminho... Termossifões com resistência eléctrica sem relógio interligado? Isso é uma aberração! E a justificação é que os turcos, os gregos e os cipriotas já têm isso de série... Não pode ser!!!

 

A chegada dos NZEB vai mudar isso?

Os NZEB são a nova obra nova. São novas regras que vão mudar completamente a dinâmica e, quando o número [uso de energia] sair para a rua, vai levar a que comecem a aparecer bombas de calor de climatização que farão também a água sanitária e, aí, poderá haver a coexistência de duas unidades de bombas de calor ou de um único sistema. A Baxi apresentou, em Maio, a nova bomba de calor I Plus, que já vem trazer uma solução de unidade vertical que cabe dentro de um armário 60 cm/60cm e um acumulador de 180 litros, que vai resolver a água quente e é compatível com o equivalente ao solar e a climatização, com piso radiante ou com fan coils. Essa é uma solução para nova obra nova.

 

Então, não há muita esperança para o solar térmico...

Há, porque isto é o que vai acontecer nas cidades. O investimento desta solução que referi é, provavelmente e no mínimo, o dobro da solução convencional caldeira e ar condicionado ou esquentador e ar condicionado ou o esquentador com o apoio do solar. Muda o paradigma do conforto, mas também muda, e muito, o patamar de investimento. Porém, continua a haver mercado para o solar porque não vamos só querer casas para vender a 1 milhão de euros, mas também casas para vender a 100 mil, 200 mil euros, etc.

 

Vamos ter de pensar o solar térmico como uma solução mais acessível ao bolso, é isso?

Provavelmente, tem de ser nesse sentido. O solar não vai acabar, continua a ser uma solução económica, que tem payback a curto prazo, e que, do ponto de vista energético, é muito bem aceite. Tem todas as pernas para andar e, com os NZEB, vai voltar a obrigatoriedade do solar. Vai acontecer muitas vezes que, para cumprir a energia obrigatória para a nova fracção, quem projectar vai ter de decidir se exagera no isolamento ou se coloca sistemas que vão dar a energia que o isolamento não consegue. E a virtude vai estar no meio! Claro que vai haver casas que vão estar tão isoladas que só será preciso arrefecê-las. A principal necessidade em termos de energia vai passar a ser para a água sanitária. Quando tiver uma bomba de calor de 4 kW, que é suficiente para me fazer o aquecimento e o arrefecimento, esta também vai ser capaz de fazer a água sanitária, mas vamos com calma, porque os 4kW não se transformam num instante para dar água quente a jorros... Nesse caso, o solar vai ser preciso, só que vai poder ser térmico ou fotovoltaico. Essa foi outra discussão que se teve na DGEG e concluiu-se que o importante é a quantidade de energia. O solar térmico não é melhor do que o fotovoltaico, nem vice-versa. Depende para o que é, e o que me interessa é a quantidade de energia. O que sabemos hoje é que, para a mesma quantidade de energia, a área de fotovoltaico é entre quatro a seis vezes mais do que com o térmico. Aceito ter os dois painéis térmicos de 4 m2, mas não quero 15 m2 de FV para gerar os mesmos 4kW.

 

Não há que temer a tendência para a electrificação?

Não me choca nada. Vai ser uma decisão do proprietário, mas este vai jogar em termos de watts. Cada m2de térmico tem 700 watts, o do fotovoltaico tem 180. Cada um tem o seu interesse e quando as baterias começaram a ser mais baratas... Com os NZEB, fala-se também da vizinhança, mas só aceito se for à escala do bairro. Não vejo que os NZEB sejam uma agressão ao solar, são uma oportunidade. Vai ter de se diferenciar entre o mercado de construção de topo, médio e corrente e, depois, entra esta parte da energia, que vai ser interessante de ver como se joga.

 

O solar térmico ainda é uma solução atractiva para o instalador?

Quando falamos na construção vertical, o solar térmico ou é encarado como uma solução colectiva, com acumulador colectivo e os vizinhos recebem a água quente directamente para um permutador, ou, na outra das hipóteses, com um campo de colectores comum e um acumulador na casa de cada um – que é a preferência dos portugueses. A solução que não tem sentido é a do termossifão no prédio. Mas quando saímos do prédio e vamos para a moradia, não há nenhuma dificuldade em colocar o solar térmico, antes pelo contrário. E as várias soluções de solar têm muito mais vantagens em termos energéticos, porque conseguimos ser autónomos praticamente o ano inteiro e não tem a carga da energia eléctrica da bomba de calor, que obriga o instalador a pensar em apresentar soluções alternativas, por exemplo, de fotovoltaico, para compensar a energia eléctrica. É verdade que quase todas as bombas de calor têm regime de horário de funcionamento nocturno e um bom instalador deixa a bomba de calor do seu cliente a trabalhar nesse regime, mas o consumo de electricidade existe sempre. E há também o poder de resposta. Nos sistemas de bomba de calor, somos obrigados a ter acumuladores de maior dimensão, porque a capacidade de resposta é baixa, acabamos por ter de funcionar com acumulação.

 

Em termos de instalação, qual é mais fácil?

A bomba de calor, obviamente. Mas os instaladores que têm o investimento feito e que se apetrecharam com as gruas, escadas, e têm a máquina montada, diria que são tão eficientes como um não habilitado com essas soluções a montar uma bomba de calor. Os instaladores que têm a máquina para a bomba de calor vão fazê-lo naturalmente, não há muitas dúvidas. Os novos players, vindos do ar condicionado, que entrem neste negócio não vão também trabalhar com o solar, vão optar pela bomba de calor.

 

Nota-se essa tendência das empresas do ar condicionado a entrarem neste mercado?

Se monta um ar condicionado, monta uma bomba de calor.

 

Vai haver uma nova dinâmica no mercado.

Sim, mas acho que são sinergias, porque cada vez mais os instaladores vão trabalhar de forma menos segmentada.

 

Tem havido lugar para o solar térmico neste boom de reabilitação urbana a que temos assistido?

Nas cidades, é difícil ir pelo solar, mas também é difícil colocar uma bomba de calor. Nenhuma das soluções está isenta de obra, e se o objectivo for fazer o mínimo de obras possível, não vai acontecer.

 

Mas tem significado vendas?

Não tanto nas cidades, mas Portugal é mais do que Lisboa e Porto. Quando se tenta fazer o mínimo de distúrbio para fora, vão entrar as bombas de calor, provavelmente o split, isto se se quiser fugir do gás. O esquentador a continua a ser tranquilo. Para o turismo, há o medo do gás e, aí, ou metem um cilindro eléctrico super ineficiente ou metem a bomba de calor que é fisicamente parecida. Nesse tipo de reabilitação, é mais fácil a bomba de calor do que o solar. Agora, se se for mexer nas entranhas do edifício, podemos perfeitamente fazer uma instalação de solar, não tem problema. Tem a ver com a sensibilidade energética do projectista e do promotor.

 

E faria também sentido haver um incentivo de cima?

Pois, habituamo-nos que os governos socialistas eram mais pró-incentivos, este calhou ao contrário.

 

Mas temos os avisos do Fundo Eficiência Energética e o programa Casa Eficiente. Não estão a funcionar?

Para o Casa Eficiente, a APISOLAR teve reuniões com o CPCI e fez-se membro, inclusivamente. As candidaturas estão a funcionar, há empresas do sector da reabilitação e construção que criaram mecanismos próprios para usar o Casa Eficiente. O programa dá um financiamento a taxas mais vantajosas e a longo prazo, o que é bom, mas não é o mesmo que ter um preço especial, como aconteceu, por exemplo, com a Medida Solar Térmico (MST).

 

É menos atractivo?

Comparativamente com uma solução de financiamento para fazer obras, esta é mais vantajosa, mas é uma vantagem financeira, de crédito. É muito dinheiro, para muitas áreas, é verdade, e a nossa área está perfeitamente identificada.

 

Olhando para o nosso parque instalado, a manutenção está a ser feita?

É obrigatória todos os anos, mas tenho muitas dúvidas que seja feita... Os instaladores, muito por força da MST, perceberam que a manutenção é essencial e é uma fonte de receita. Quando andamos pelo país e falamos com os instaladores, percebemos que há um grupo que entendeu isso e tem um mapa e um calendário anual, sabe programar para propor as manutenções nas épocas em que há mais baixa de trabalho – esse grupo gera negócio e é já um parceiro do cliente. Depois, há os menos organizados, que funcionam por memória e a memória é marota.

 

Ouvimos muito dizer que o solar térmico tem de procurar novos nichos de mercado, como a indústria ou as redes de aquecimento urbano. Em Portugal, isso faz sentido?

Nós não temos o hábito cultural das redes de aquecimento, pelo que não vejo que possa vingar. A indústria, é óbvio que tem potencial, talvez não com o painel solar plano, mas com o de vácuo, que consegue temperaturas muito mais altas. Há inúmeros negócios em que a quantidade de água quente necessária pode ser feita com painéis de tubos de vácuo, mas são pontuais em Portugal.  Quando se pensa em solar na indústria, pensa-se só no parque de estacionamento ou na nave industrial com o fotovoltaico em cima. 

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